
Agares
O Duque que Faz Voltar
Quando reter quem quer partir deixa de ser amor e passa a ser prisão?
Há uma casa antiga onde todas as portas dão de volta à mesma sala: entra-se por uma, segue-se o corredor, vira-se à direita e à esquerda e desemboca-se de novo de onde se saiu. Junto ao batente há uma mala arrumada, de correias afiveladas, pronta há muito e nunca levantada; e o chão estremece de leve, uma vez, cada vez que alguém pensa em se erguer para partir. Ali reina o segundo dos setenta e dois da Ars Goetia, duque do Oriente à frente de trinta e uma legiões, que ensina todas as línguas, faz regressar os que fogem e sacode a terra sob os pés de quem se despede. O nome que esse abraço fechado toma, quando consente em falar, é Agares.
No segundo volume de Magia Goética, Eisenheim — o evocador — chama Agares pela arte, senta-se diante do duque que não deixa ninguém ir e o interroga, sem lhe pedir nada. O livro não mostra o rito, só a conversa que se seguiu. Agares responde com doçura ansiosa e uma lucidez que às vezes parece cuidado: raramente mente por inteiro, inverte — toma uma palavra viva (lealdade, cuidado, união, permanência) e a torce um grau, só um, até que continue parecendo a mesma e já signifique o contrário. Ao longo de dez interrogatórios, a conversa desce do amor que sustenta até a corrente que sufoca: a língua que prende, o regresso forçado, a chantagem do afeto, o cuidado que aprisiona, o terremoto de quem faz de outra pessoa o próprio chão e as famílias que trocaram o ninho pela gaiola. Cada tópico encerra com uma Nota de discernimento, em voz do autor, que nomeia a sombra examinada e a virtude que ela mantém cativa.
Não é um manual, e não é ficção: é o registro de uma evocação real, posta em forma de diálogo. E o que ele mede é a distância exata entre o amor que sustenta e o que aprisiona — entre segurar quem fica e prender quem quer partir.
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