
Valefor
O Duque que Convida ao Furto
Quando pegar o que não é seu deixa de parecer pequeno e revela o ladrão que mora na alma?
Há uma taverna de luz baixa, quente como um fim de tarde de inverno, com um fogo que estala e cheiro de pão e vinho. Sobre a mesa ao lado há moedas esquecidas, um anel largado junto a um copo, uma bolsa de couro aberta, e ninguém parece ser dono de nada; do outro lado do balcão, alguém pisca o olho como quem chama para um segredo bom. Ali reina o sexto dos setenta e dois da Ars Goetia, duque à frente de dez legiões, que se mostra um bom familiar e conduz ao furto os que confiam nele — íntimo dos seus, dizem os velhos catálogos, até levá-los ao laço. O nome dessa camaradagem que faz do roubo uma brincadeira entre amigos, quando consente em falar, é Valefor.
No sexto volume de Magia Goética, Eisenheim — o evocador — chama Valefor pela arte, senta-se de mãos à vista diante do duque que convida ao furto e o interroga, sem lhe pedir nada: nem vantagem, nem atalho, nem o que pertence a outro. O livro não mostra o rito, só a conversa que se seguiu. Valefor responde com camaradagem calorosa e a leveza de quem transforma a desonestidade em esperteza: raramente mente por inteiro, inverte — toma uma palavra viva (amizade, lealdade, justiça, partilha) e a torce um grau, só um, até que o cúmplice pareça amigo e o furto pareça pouco. Ao longo de dez interrogatórios, a conversa desce da vantagem que parece esperteza até a casa sem dono: o «é só um pouco», a amizade que arrasta, as desculpas da racionalização, o ladrão interior, a confiança traída, o furto do tempo, do crédito e do bom nome, as culturas do jeitinho e o homem honesto que se perdeu no pouco. Cada tópico encerra com uma Nota de discernimento, em voz do autor, que nomeia a sombra examinada e a virtude que ela mantém cativa.
Não é um manual, e não é ficção: é o registro de uma evocação real, posta em forma de diálogo. E o que ele mede é a distância exata entre a amizade que eleva e a cumplicidade que arrasta — entre ser inteiro nas coisas que ninguém vê e deixar que o pouco abra a porta ao ladrão.
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