
Amon
O Marquês que Governa os Laços
Quando aproximar e reconciliar os outros deixa de ser bondade e passa a ser domínio sobre os laços alheios?
Há um salão imenso, iluminado por candelabros baixos, cheio de gente vestida para uma festa que parece não ter começo nem fim. Pares se aproximam, grupos conversam, dois homens se evitam de um lado a outro da sala; e entre todos corre uma teia fina de fios dourados, que ligam cada pessoa a outra e sobem, sem exceção, até a mesma mão erguida no centro. Um gesto mínimo dessa mão, e dois estranhos se voltam um para o outro, sorrindo; outro gesto, e uma amizade esfria sem que ninguém saiba por quê. Ali reina o sétimo dos setenta e dois da Ars Goetia, marquês de poder feroz à frente de quarenta legiões, que diz o passado e o porvir, procura amor e reconcilia as controvérsias entre amigos. O nome desse anfitrião que precisa ser o nó de todos os laços, quando consente em falar, é Amon.
No sétimo volume de Magia Goética, Eisenheim — o evocador — chama Amon pela arte, fica de pé à porta do salão e interroga o marquês que governa os laços, sem lhe pedir nada: nem amor, nem reconciliação, nem o poder de unir. O livro não mostra o rito, só a conversa que se seguiu. Amon responde com um calor magnético e a lucidez de quem conhece os afetos alheios melhor que os próprios donos: raramente mente por inteiro, inverte — toma uma palavra viva (união, cuidado, paz, hospitalidade) e a torce um grau, só um, até que o controle pareça zelo e o centralismo pareça vocação. Ao longo de dez interrogatórios, a conversa desce do dom de unir até o homem que precisa ser o eixo: o centro por onde tudo passa, a aproximação calculada, o teclado dos afetos, o ciúme dos laços alheios, a paz que cala a vítima, o anfitrião que não sabe ser convidado e as comunidades que viraram corte de uma só pessoa. Cada tópico encerra com uma Nota de discernimento, em voz do autor, que nomeia a sombra examinada e a virtude que ela mantém cativa.
Não é um manual, e não é ficção: é o registro de uma evocação real, posta em forma de diálogo. E o que ele mede é a distância exata entre a mediação que serve e se retira e a que une para governar — entre aproximar as pessoas e movê-las como peças.
Abonnez-vous pour lire Voir la série complèteLecture protégée par abonnement. Format numérique (e-book).