
Satan
O Trono do Eu
Quando a liberdade se separa da Fonte, ela ainda é liberdade ou já se tornou exílio?
Há uma sala com duas cadeiras iguais, frente a frente — e essa igualdade é o primeiro aviso. Onde deveria haver um anfitrião e um visitante, há dois tronos, e a simetria pesa como uma ameaça: a própria palavra "eu", posta sobre a mesa de pedra escura, reivindica assento. Ali mora Thaumiel, a sombra de Kether — a Unidade rompida em dois tronos que se odeiam. O nome que essa cisão toma, quando fala, é Satan.
No segundo volume de A Árvore da Morte, Frater Eisenheim senta-se como igual diante do único adversário que nunca mente — apenas acusa, e a acusação é mais perigosa que a mentira, porque costuma ser verdadeira, só que incompleta, só que sem misericórdia, só que orientada para a separação. Satan não oferece poder: oferece um trono gêmeo, a promessa de uma autonomia absoluta, e chama a esse exílio de liberdade. Cada resposta que dá é uma fronteira traçada no meio da sala — e a única vitória possível não é vencê-lo pela força nem ceder-lhe o lugar, mas permanecer de pé diante da cadeira vazia que ele deixa sempre, sempre disponível.
Não é um manual. É um espelho partido ao meio — e o que ele reflete é a distância exata entre resistir ao falso e ajoelhar-se ao verdadeiro.
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